terça-feira, 10 de agosto de 2010

O PROTESTANTISMO E O ANIQUILAMENTO DA RAZÃO - IRC-LCP III-II-2

O princípio fundamental da reforma religiosa repousa sobre o aniquilamento da razão. A mais nobre das nossas faculdades de conhecimento, segundo Lutero, é radicalmente incapaz de elevar-se a Deus. "Nas coisas espirituais e divinas a razão é completamente cega"

Razão e fé, ciência e teologia se contradizem como inimigas irreconciliáveis. Destarte, em consequência de suas doutrinas religiosas foi LUTERO levado a admitir a teoria das duas verdades: uma tese pode ser verdadeira em teologia e falsa em filosofia, impor-se ao crente como verdade revelada e repugnar ao sábio como contradição formal. Devemos crer o que a inteligência nos demonstra como absurdo. É a renúncia à lógica e o suicídio da razão.


Nesta alternativa de optar pela razão ou pela fé, qual o dever do crente? Aniquilar a razão, estrangulá-la com uma besta feroz. "É necessário reduzir a inteligência e a razão ao estado de faculdades latentes e mortas em que se acham na infância; só assim poderemos chegar à fé, pois a razão contradiz a fé".29 "Os verdadeiros crentes sufocam a razão depois de lhe dirigir esta advertência: ouve-me, razão minha, tu és cega, louca, nada compreendes das coisas do céu. Não levantes tanto clamor, emudece e não penses que podes julgar a palavra de Deus. Assim fecham os crentes a boca da fera, a que nenhuma outra força poderia impor silêncio e esta é a obra mais meritória, o sacrifício mais agradável ao Senhor".30 "A razão é diametralmente oposta à fé; o verdadeiro crente nada tem que ver com ela. Mais. Incumbe-lhe o dever de destruí-la inteiramente e sepultá-la. É verdade que os anabatistas fazem da razão o facho da fé, dizem que a sua missão é iluminá-la e indicar-lhe o caminho. 





A REFORMA E A CULTURA INTELECTUAL - Pg 351 (continuação)




LIVRO III

A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO

Capítulo II

A IGREJA, A REFORMA E A CULTURA INTELECTUAL

§ 2. - A Reforma e a cultura intelectual.

SUMÁRIO - Aniquilamento da razão na teologia de Lutero. - Desorganização do ensino primário. - Decadência das escolas secundárias e superiores. - Guerra às belas-artes.



Acabamos de demonstrar com a história na mão que, ao nascer a Reforma, já na Europa cristã, de há muitos séculos se havia delineado, sob o alto patrocínio da Igreja, o grande movimento intelectual que preparou os esplendores das civilização moderna. As escolas primárias extraordinariamente multiplicadas cobriam o Ocidente cristão. As universidades franqueavam as suas portas à juventuade ávida de saber. Os monumentos de arte aformoseavam as cidades; as catedrais góticas, milagres de ciência, arte e fé, elevavam as suas agulhas e suas ogivas como testemunhas perenes da alta cultura das gerações que as idearam e executaram.


À Reforma já não restava nenhuma iniciativa no campo intelectual. Cronologicamente a Igreja a precedera de muitos séculos na obra civilizadora. Só a uma glória podia ela pretender: a de
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24. Bibliografia. Sobre a influência da Igreja na cultura intelectual podem consultar-se: BALMES, el protestantimo comparado com el catolicismo, Barcelona 1842-44, cc. 69-72; BRENAN, What Catholics has done for science, New-York, 1898; CHATEUBRINAD, Le génie du christianisme; M. FRANCIS EGAN,Glories of the Catholic Church in Art, Litterature and History, Chicago, 1896; HETTINGER, Apologie des Christentums(9) Freiburg i. B., 1908, 6. V, c. 21, pp. 176-291; LODIEL, Nos raisons de croire, Paris (sem data) maison de la bonne presse, cc. III, VI; L. PRUNEL, L'Eglise, Paris, Beauchesne, 1919: Append. III, L'Eglise et l1enseignement primaire avant la Révolution, pp. 306-329;L. A. PAQUET, L'Eglise et l'éducation à la lumière de l'histoire et des principes chrétiens, Québec, 1909: I. Partie, pp. 1-56; SCHANZ, Apologie des Christentums(3), Frieburg i. B. 1906, t. III, § 15, n. 3, pp. 659-692;G. P. SINOPOLI GIUNTA, Storia leteraria della chiesa, 2 vols., Torino-Roma, Marietti, 1920-22; ZHM, What the Church as done for science, Notre Dame, Indiana, Trad. franc. de FLAGEOLET, Science catholique et savants catholique, Paris, 1895.


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secundar esta ação benfazeja, ultimando a tarefa iniciada e guiando rapidamente os povos ao fastígio da grandeza espiritual, longa e laboriosamente preparada pelos esforços dos séculos que a precederam.


Estas glória, infelizmente, não a podem vindicar os reformadores. O grande movimento anticatólico provocado no século XVI pela revolta de LUTERO foi a maior remora ao progresso das ciências e das letras nos tempos modernos. O advento do protestantismo inaugurou uma crise intelectual em que por quase dois séculos se debateram os países que o abraçaram.


Esta tese, que a mais de um leitor há de causar a maravilha de um paradoxo, é a que empreendemos agora demonstrar. Seremos largos em citações e em citações contemporâneas e em citações de protestantes.25 Não se trata de declamar mas de provar e provar uma verdade histórica. Fatos e documentos irrefragáveis serão os alicerces inconcussos, sobre os quais havemos de fundamentar as nossas conclusões.


Levados pelo ódio cego ao Papado e a todas as suas instituições, os primeiros reformadores envolveram no mesmo anátema tudo o que a Igreja católica havia criado, protegido, abençoado.


As maldições começaram contra a natureza humana e as mais nobres das suas prendas: a razão e a vontade.


Para a filosofia católica, a razão é a mais excelente das faculdades humanas. Na ordem puramente natural é o farol luminoso que orienta toda a nossa atividade. Na ordem sobrenatural, sem nada perder de sua dignidade nativa, ela se eleva e enobrece, pondo ao serviço da revelação divina o melhor de suas luzes. À razão pertence conduzir o homem à fé. À filosofia incumbe a nobre missão de guiá-lo aos umbrais da teologia. As universidades são o vestíbulo do templo. Entre a razão e a fé, portanto, nenhuma contradição possível; dons, uma e outra, do mesmo Deus, pai de todas as luzes, harmonizam-se nos laços da mais estreita aliança. E eis porque a Igreja, coluna infalível da verdade, como defendeu em todos os tempos o depósito da revelação contra os assaltos da heresia, assim tutelou com não menor energia os direitos da razão, amesquinhada pelas mutilações do cepticismo ou pelas cavilações dos sofistas.
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25. Dificilmente ao leitor brasileiro será dado ter à mão estes documentos contemporâneos da origem da Reforma e que constituem os preciosos cimélios das bibliotecas da velha Europa. Poderá, porém, consultá-los nas obras clássicas de DOELLINGER, DENIFLE, JANSSEN e GRISAR que citaremos em bibliografia no fim deste capítulo e do seguinte.



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Não assim entendeu LUTERO. O princípio fundamental da sua reforma religiosa repousa sobre o aniquilamento da razão. A mais nobre das nossas faculdades de conhecimento é radicalmente incapaz de elevar-se a Deus. "Nas coisas espirituais e divinas a razão é completamente cega"26



Razão e fé, ciência e teologia se contradizem como inimigas irreconciliáveis27 Destarte, em consequência de suas doutrinas religiosas foi LUTERO levado a admitir a teoria das duas verdades: uma tese pode ser verdadeira em teologia e falsa em filosofia, impor-se ao crente como verdade revelada e repugnar ao sábio como contradição formal. Devemos crer o que a inteligência nos demonstra como absurdo. É a renúncia à lógica e o suicídio da razão.28



Nesta alternativa de optar pela razão ou pela fé, qual o dever do crente? Aniquilar a razão, estrangulá-la com uma besta feroz. "É necessário reduzir a inteligência e a razão ao estado de faculdades latentes e mortas em que se acham na infância; só assim poderemos chegar à fé, pois a razão contradiz a fé".29 "Os verdadeiros crentes sufocam a razão depois de lhe dirigir esta advertência: ouve-me, razão minha, tu és cega, louca, nada compreendes das coisas do céu. Não levantes tanto clamor, emudece e não penses que podes julgar a palavra de Deus. Assim fecham os crentes a boca da fera, a que nenhuma outra força poderia impor silêncio e esta é a obra mais meritória, o sacrifício mais agradável ao Senhor".30 "A razão é diametralmente oposta à fé; o verdadeiro crente nada tem que ver com ela. Mais. Incumbe-lhe o dever de destruí-la inteiramente e sepultá-la. É verdade que os anabatistas fazem da razão o facho da fé, dizem que a sua missão é iluminá-la e indicar-lhe o caminho. A
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26. Erl. XLV, 336; XIVII; LI, 400.

27. Walch. X, 1598. Cfr. DENIFLE, Luther und Luthertum I(2), 6538 sgs. DOELLINGER, Die Refomation, I(2), 481.

28. Sobre a teoria das duas verdades em Lutero cfr. E. ZELER, Geschichte der deutshen Fhilosophie. München, 1873, p. 29. STOECKEL, Geschichte der Philosophie des Mittelalters, Mainz, III, 512, ss.; Ver not precedente.

29. Erl. XLIV, 156 ss.; Luther's ungedr. Predigten heraugegeben von Brtunms, p. 106.

30. "Fides rationem mactat et occidit illam bestiam quam totus mundus et omnes creaturae occidere no possunt... Sic omnes pif... mortificant rationem, dicentes: Tu ratio, stuta es, non supis quae Dei sunt, itaque ne obstrelpas mihi, sed tace non judica, sed audi verbum Dei et crede. Ita pii fidem mactant bestiam maiorem mundo, atque per hoc Deo gratissimum sacrificium et cultum exhibent". Weimar, XL, Iabt., 362.





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razão irradiar luz? Sim irradia luz, como... (vá em alemão o resto) wie ein Dreck einer Laterne".31


Por vezes o seu estilo intemperantemente cínico e descomposto encontra para vilipendiar a razão expressões tão baixas e obscenas que só acham parelha nas sua invectivas contra Roma.


Veda-nos o pudor traduzir aqui estas salacidades de bordel. Depois de acabrunhar a nobilíssima entre as faculdades humanas com o ultraje ignominioso de prostituta, termina atirando-a ao lugar mais imundo da casa.32 Assim falava o grande reformador nos seus sermões, assim ultimava o seu curso de pregações em Wittemberga - como se remata uma orgia.


Depois desta ignomínias, que maravilha que "os emancipadores da razão humana" se desmandassem contra os seus mais abalizados representantes e tentassem extinguir todos os focos donde ela irradia a sua claridade?


Aos olhos de LUTERO, ARISTÓTELES, não passa de um "comediante que por muito tempo enganou a Igreja com as suas máscaras gregas"; é "um Proteu, o mais astuto enganador dos espíritos; se não fora de carne, não deveríamos hesitar em ver nele o diabo".33 "De TOMÁS DE AQUINO duvido se se salvou ou se condenou... TOMÁS escreveu muitas heresias e inaugurou o reino de ARISTÓTELES, devastador da santa doutrina".34

As universidades são "espeluncas de assassinos", "templos de Moloch", "verdadeiras cidades do diabo na terra". O ideal fora destruí-las todas. O estudo das literatura clássica é um ciência ímpia, pagã, diabólica. "O deus Moloch, a que os hebreus sacrificaram os seus filhos, é hoje representado pelas universidades às quais imolamos a maior e melhor parte da nossa juventude... O que, porém, nunca se poderá bastantemente deplorar é que a juventude é, nelas, instruída nesta ciência ímpia e pagã que tende a corromper
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31. Erl. XLIV, 156, ss.

32. Aí vai velado nas obscuridades do alemão o texto íntegro: "des Teufeis Braut, Racio, die schöne Metze, eine verfluchte Hure, eine schaebige aussaetzige Hure, die Hoechste Hure des Teufels, die man, auf dass sie hässlich werde, einen Dreck in's Angesicht werfen solle, auf das heimlich Gemach solle sie sich trollen, die Verfluchte Hure, mil ihrem Dunkel, usw" Erl. XVI, 142-148. DOELLINGER, I(2), p. 480; DENIFLE I(2), 639. Erl XX, p.479. Quase todas as palavras que começam por maiúscula são palavras infames.
Ver outros impropérios contra a razão no Comment. in epist. ad Galatas, III, 6, Ed. Irmischer, I. 331. Ed. Weimar XL, 1 abt: a razão é "atrocissimus Dei hostis", p. 363, fons fontium omnium malorum!, p. 365.

33. DE WETTE, I, 15.

34. Weimar, VIII, 127.




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miseramente as almas mais puras e os ânimos mais generosos".35 As escolas superiores mereciam ser destruídas até aos alicerces; desde que o mundo é mundo não houve instituição mais diabólica, mais infernal".36


"Se a revelação cristã condena evidentemente a carne e o sangue, isto é, a razão humana e tudo o que do homem procede, como incapaz de nos levar a J. C., claro está que tudo isto não passa de mentiras e trevas. E no entanto as altas escolas, estas escolas diabólicas fazem grande alarde de suas luzes naturais e guindam-nas até aos céus, como se fossem não só úteis senão indispensáveis à manifestação da verdade cristã. Assim que hoje é coisa perfeitamente estabelecida que todas essas escolas são invenção do demônio para obscurecer o cristianismo... Nelas se ensina que a luz divina ilumina a luz natural como o sol ilumina e faz ressaltar um belo painel: todas essas são idéias pagãs e não doutrina de J. C. Por esta forma as escolas instruem os seus doutores e sacerdotes mas é o demônio quem fala pelos seus lábios, etc., etc.".37




Como se vê , a Reforma desde os seus primódios, com suas tendência subjetivas e sentimentais, assumiu uma posição declaradamente antiintelectulista.


Com razão, pois, escreve PAULSEN: "O protestantimo na sua origem e na sua natureza é irracional: A razão, por si mesma, nada pode conhecer de quanto concerne à fé. A palavra de Deus: eis a única fonte de fé. O papel da razão em face da Sagrada Escritura é meramente formal: determinar-lhe o sentido genuíno. A teologia não passa de uma exegese filológica: gramática in sacra pagina occupata. Uma demonstração racional e filosófica das verdades das salvação não é nem possível nem necessária... Tal a concepção de Lutero".38


Eis a doutrina; vejamos-lhe os frutos. Eis os princípio; estudemos-lhe as consequências. Os frutos e as consequência foram a baixa geral do nível dos estudos, a decadência literária e científica
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35. Walch, XIX, 1430.

36. Walch, XII, 45

37. Walch, XI, 459, 599. As três últimas citações apud DEOLLINGER, Die Refomation, I(2), 475-77.

38. PAULSEN, Philosophia militans (3), Berlim, 1908, pp. 35-39. Enquanto permaneceu fiel às doutrinas de Lutero e Calvino, a igreja protestante não teve poesia, nem história, nem filosopia. Sim, certamente, enquanto as comunidades protestantes foram luteranas não tiveram filosofia e quando acolheram uma filosofia cessaram de ser luteranas. Tanto foge a sua fé da filosofia e a sua filosofia da fé". MOEHLER, Gesammelle Schriften und Aufsaelze, Regensburg, 1839-40, I, 260. Desta filosofia antiintelectualista nasceu uma tendência hostil às conquistas científicas já realizadas. "A Reforma sepultou injusta e odiosamente muitos conhecimentos de que estavam de posse os seus contemporâneos, tornando-se assim responsável das crise posterior do protestntismo". A. HARNACK, Lehrbuch der Dogmengeschichte, III(4), Tübingen, 1910, p. 871.




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em toda a parte onde a Reforma prevaleceu. E o que já observara em ERASMO: "Ubiquoque regnat Lutheranismus ibi literaram est interitus"39 e em outro lugar: "Ubicumque sunt ibi jacent omnes bonae disciplinae com pietate".


Particularizemos. Foi no ensino popular que primeiro exerceram sua influência mortífera as doutrinas reformadras. A instrução dos pobre e dos humildes recebeu o primeiro golpe.


Aqui não quero outro testemunho senão o do próprio LUTERO. Em 1524 numa carta aos burgomestres e conselheiros das cidades, lamentava ele: "De dia para dia experimentamos como nos países alemães as escolas vão caindo em completa ruína. Desde que faltaram os mosteiros e as fundações, já ninguém quer ensinar os próprios filhos e obrigá-los a estudar. Isto é obra do demônio" (personagem infalível nos escritos do reformador)... Sob o papado, o demônio havia estendido as suas redes por meio dos mosteiros e das escolas de tal maneira que sem um milagre de Deus não era possível que delas escapasse uma criança"...40 "Agora que a luz do Evangelho nos libertou das contribuições e roubos dos clérigos por que não empregais uma parte do que economizastes na educação da juventude? Dos particulares não há que esperar, queiram ou possam fazer coisa alguma para estabelecer novas escolas. Os príncipes e senhores a quem incumbe este dever ocupam-se em viagens, cavalgadas, patinações, torneios ou verga sob o peso dos interesses importantes da adega, da cozinha e da alcova". "Por isto, meu caros conselheiros, nas vossas mãos ponho eu todo este negócio; mais que os príncipes e senhores tendes para isso ocasião e oportunidade".


Os destinatários da mensagem, porém, não se deram por entendidos. Cinco anos depois (1529) deplorava Lutero que "os conselheiros em todas as cidades e em quase todos os governos deixassem perecer as escolas, como se estas fossem livres, ou eles houvessem sido exonerados do dever de zelar pela instrução".


Quão fundadas eram estas queixas depreende-se de uma carta do próprio LUTERO datada de 1525 ao Príncipe eleitor da Saxônia:
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39. Carta de Basiléia a W. Pirkheimer, 1528, Opera, Ed. Clericus, Lugduni Batavorum, 1702-1706, III, col. 1139. Cfr. DOELLINGER, Die Reformation, I, 470-71.




40. Note-se: por obra do demônio e dos frades havia tantas escolas e tão frequentadas que era necessário um milgre de Deus para que um menino não recebesse instrução. E o Sr. Carlos Pereira a escrever: "O analfabetismo é a vida cancerosa da Igreja Romana"! p. 126.









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Tão geral era a desordem no país que "a não se começar logo uma vigorosa organização com auxílio do governo, em breve não haveria nem paróquias nem escolas nem alunos". Em novembro do ano seguinte em outra epístola: "Aqui já não há disciplina nem temor de Deus, porque, perdido o medo ao Papa, cada qual fez o que bem lhe parece". Para a educação dos meninos pobres "faltam sacerdotes e escolas".


Com o passar dos anos, a crise da escola tornava-se cada vez mais aguda. Em 1530 o reformador levanta a voz e dirige-se a toda a Alemanha: "Uma das maiores astúcias do malvado Satanás" é enganar os homens do vulgo que não mandem os seus filhos à escola nem os apliquem aos estudos. Não havendo já esperança dos monges e das freiras e dos párocos, como até ao presente, persuadem-se que não havemos mister de nenhum homem erudito, nem de estudar muito, mas só de descansar e fazer por bem comer e enriquecer... Caros amigo, vendo que os homens do vulgo se afastam das escolas e retiram de todo os seus filhos dos estudos para os dedicarem só aos cuidados do bem viver... resolvi dirigir-vos esta exortação... Quando gemíamos sob a tirania do papado abriam-se todas as bolsas e não havia mãos a medir em dar para as igrejas e as escolas. Então podiam levar-se os filhos aos monteiros, às fundações, às igrejas e às escolas. Agora que se deveriam fundar boas escolas e igrejas, e não só fundá-las de qualquer modo mas sustentá-las depois de fundadas, cerram-se todas as bolsas com cadeados de ferro".41´


Eis as benemerências de LUTERO no ensino primário. Depois de detruir as antigas escolas católicas, disseminadas pelo território alemão em tão crescido número que só por milagre não as frequentaria uma criança, entra a fazer apelos a particulares, conselheiros e príncipes para que fundem escolas. Mas as bolsa dos particulares fecham-se com cadeados de ferro, os conselheiros e príncipes divertem-se em guerras e montarias, em torneios e banquetes. A estes clamores perdidos no vazio reduz-se toda a ação prática do reformador.


Contra esta realidade esmagadora, que monta o sediço paralogismo mais uma vez repisado pelo gramático paulista: a Reforma
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41. Os trechos citados e muitos outros não menos expressivos podem ler-se em JANSSEN, Geschichte des deutschen Volkes, t. VII (13-14), p. 16, Freiburg, i. Br. 1904. Nas obras de Lutero, o manifesto "An die Ratherren aller Staedte deuschen Landes, dass sic christliche Schulen aufrichten und halten sollen" acha-se, na ediç. Weimar no 6. XV. 27-53; o sermão de 1530 "dass man Kinder zur Schule halten soll", Weimar, 12 Abt., pp. 517-588.




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fez da Escritura a única regra de fé; mas para conhecer o Evangelho é necessário saber ler; logo a Reforma "contraiu a obrigação de pôr cada um no estado de se salvar pela leitura da Bíblia", p. 126. Isto é silogismo e a história consta de fatos. O que devera ou pudera ter feito a Reforma pertence ao domínio das coisas possíveis impérvias tanto a mim quanto ao Sr. C. PEREIRA; o que de fato fez, acabamos de ouvir e é o que nos interessa aos que vivemos de realidades e não de possibilidades.


Do ensino primário se alastrou o contágio da desorganização e da desordem e contaminou outrossim as formas mais elevadas da instrução. Ouçamos este grande epicédio, este concerto fúnebre entoado pelos contemporâneos sobre a morte das ciências e das letras.


CAMERÁRIO, um dos mais ardentes propagadores da Reforma, lamenta a ruína dos estudos "destes excelentes estudos que no passado constituíam o mais belo ornamento e o mais nobre recreio dos espíritos. Quem não lembra o vivo ardor pela ciência que animava a juventude dos nossos tempos? Quem ignora a consideração e a estima em que era tido o talento? As coisas, andam mal! Mudaram de aspecto. Hoje, aos estudos não há nem amor nem estima, mas aversão. Os espíritos desgarraram da luz apenas nascentes do Evangelho para mergulharem no erro e nas trevas".42

EUSÉBIO MÊNIO, professor de matemáticas em Wittemberga: "Sinto grande confusão em comparar o desleixo da nossa época (1553) com zelo e ardor pelos estudos que, no século passado, se manifestava em toda a aparte. Os homens nos instruídos envergonhavam-se então de não saber algo de matemática e de física; hoje, estas ciências são tão descuradas que, nas numerosas fileira dos estudantes, raríssimos são os que não ignoram o que outrora era familiar até aos meninos de escola".43

"Eu não sei como explicar o fato, diz por sua vez TOMÁS LÂNSIO, professor de direito em Tubinga, mas as ciências, de par com os bons costumes e autoridade política, nos abandonam e emigram para o outro mundo".44

O descaso dos estudos manifesta-se outrossim pelo desprezo aos homens de ciência. Em vez de estima pública e da proteção
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42. CAMERARIL, Praecerpta morum et vitae, Lipciae, 1555, p. 1-5.



43. EUSEBII MENII, Otatio de vitas jac. Milichii, Witembergae, 1562, B.



44. LANSII, Mantissa Constitutionum, p. 68.






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oficial que caracterizam as épocas policiadas e os países cultos, os sábios não encontravam nas multidões senão indiferença e sarcasmo. "Sob a antiga Igreja, diz CHRISTÓFORO PELÁGIO, professor em Francofort, as coisas não corriam assim: mestres e alunos cumpriam com zelo e alegria o seu dever. Presentemente, em meio a esta raça de ciclopes e de vândalos, as artes e as boas letras caíram mais baixo não obstante o desprezo e o ódio que por cá se mostram aos estudos, ainda se encontrem na Alemanha vestígios das musas. O povo e não somente o povo mas aqueles que deviam dar bom exemplo, tratam hoje os doutos como se tratavam outrora os bobos e foliões".45 Com Pelágio afina PETRI, escrivão da cidade de Mulhouse. Não se poderá negar "que nestes últimos tempos, graças ao aperfeiçoamento da imprensa, tiveram os nossos maiores grande número de doutos, assinalados, comparáveis não só, mas superiores aos sábios da antiga Roma e Grécia; Não havia em nossa pátria cidadezinha e, por assim dizer, cantinho de terra que não possuísse alguns. Depois, porém, diminuiu singularmente a estima que então se consagrava aos cultores das musas. Que digo? Tornaram-se de tal modo alvo de aversão que se apontavam o dedo como monstros e até as crianças os perseguiram com apupos e injúrias.... Tão geral em nossos dias é este desprezo dos doutos que os próprios príncipes os afastam de seus conselhos e para os grandes cargos dão preferência aos homens de espada e aos nobres educados entre as loucas dissipações do mundo.46


Que diferença há entre os chefes da igreja evangélica e os bispos papistas? Pergunta CORDI, amigo de LUTERO e professor de medicina em Marburgo. "Nenhuma, responde, a não ser que, onde dominam os primeiros, as ciências e as letras estão em decadência: onde os bispos conservaram a influência, prosperam sob a sua proteção".47




Estes depoimentos individuais, que se poderiam multiplicar sem dificuldade, são confirmados pelos relatórios oficiais, inquéritos e provisões públicas.
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45. CHRIST. PELAGH, Pleias orationum sacrarum, 1618, N. 2 b. - O. 2 b.

46. JAKOB HEIRICH PETRI, Der Stadt Müthausen Geschchten, Mulausen, 1838, p. 494.


47. 
Quanto Evangelici ditent discrimine dicam
Papistis ab episcopis?
Non faz est, nisi quando, rerum potentibus illis
Bonae cadant jam literae,
Quarum magna sub his tamen emolumenta fuerunt
Dignumque juxta praemium.


EURICI CORDI, Opera Poetica, s. l. etc. a. f. 109, 278.




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Nas atas dos privilégios concedidos em 1529 à universidade de Marburgo pelo eleitor FILIPE DE HESSEN lê-se a seguinte declaração de motivos: "Considerando que as artes, as letras, as ciências e os estudos liberais, em geral, nos últimos tempos caíram em grande descrédito entre o povo ignorante e ameaçam cair mais profundamente; considerando que a aversão pública aos livros, aos estudos e aos próprios doutos é tão profunda e manifesta que, parece, nada se deseja mais ardentemente que ver o mundo livre deles; considerando que, se nos não apressamos em pôr eficaz remédio a semelhante estado de coisas, os estudos se vêem ameaçados, para breve, de total ruína, etc., etc."48
Os inspetores encarregados em 1573 de visitar as igrejas e escolas da Saxônia assim se exprimem no seu relatório: "De todos os males que afligem a nossa sociedade e ameaçam a Igreja e o Estado de próxima queda, o mais deplorável é talvez o mau estado das escolas inferiores nas cidades e a falta de zelo pela religião e pela ciência quer em professores e estudantes de dia para dia sempre mais se observa".49

Em Hasse a fúria dos pregadores evangélicos havia destruído todas as escolas. Vinte anos mais tarde, o conselho da cidade de Cassel, num memória ao Eleitor, declarava que "a burguesia de há muito estava queixosa porque os meninos, depois de frequentar por vários anos a única escola da cidade, não conheciam ainda as declinações e conjugações e nem ler bem sabiam". Com o tempo agravou-se este estado de coisas e em 1635 reconhecia o governo que "se não se dessem pressa em remediar os males que dele haviam resultado, toda a sociedade corria risco de cair na desordem, no embrutecimento e na barbárie".50


Modernamente, PAULSEN não faz senão resumir a impressão geral que se desprende dos fatos e documentos da época, quando escreve que, no fim do século XVIII, isto é, depois dos dois séculos imediatos à implantação da Reforma, "as universidades alemãs caíram no mais baixo estado que ainda se viu, na estima pública e na influência sobre a vida espiritual do povo alemão".51
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48. ROMMEL'S Philipp der Grossmütthige, Landgraf von Hessen, III, p. 348.

49. STROBAND, Instituto literata, III, 328.

50. CARR FRID. WEBER, Teschichte der staedtichen Gelehrtensuschule zu Cassel, von 722-1599, Cassel, 1843, p. 17; von 1599-1709, Cassel, 1844, p. 61.

51. PAULSEN, Die deutschen Universitaeten und das Univsitaetsstudium, Berlin, 1902, pp. 49-50.





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Fora da Alemanha, o protestantismno frutificou por toda a parte a mesma ignorância. Citemos de carreira para não incorrermos em demasias fastidiosas.


Na Inglaterra, declarava em 1563 o Speaker da Câmara baixa: em consequência das rapinas e saques das fundações, ficou frustrada a educação da juventude e cortados os estipêndios dos professores. Atualmente existem menos 110 escolas que outrora e as restantes são mal frequentadas. Por isso observa-se uma surpreendente diminuição de homens instruídos.52 Nas duas universidades de Oxford e Cambridge, os numerosos colégios fundados nos tempos católicos, era na sua maioria, propriamente destinados aos pobres. Com a Reforma foram aristocratizados. Mais tarde fundaram-se novas escolas superiores, mas os pobres foram sistematicamente excluídos.


Ouvimos, há pouco, os lamentos pela falta de homens cultos. Esta inferioridade intelectual pesou por quase dois séculos sobre a Inglaterra. Fale um autor insuspeito, que organizou uma estatística interessante dos tempos em que a Grã-Bretanha jazia num "oceano de protestânticos resplendores". "O período é de 1600 a 1787, escreve W. COBBETT, período em que a França jazia sob o tenebroso despotismo da Igreja católica, como exprime o jovem Jorge Rosa ou sob a ignorância e superstição monacal, na frase de Blackstone, enquanto estas ilhas [Inglaterra, Escócia e Irlanda] nadavam num mar de luzes irradiadas por Lutero, Crammer e seus sectários. Eis sem mais o quadro:




53.
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52. COLLIER'S, Eccles. History of Grat Britain, II, 480 e HALLAM, Introduction to the literature of Europe, Paris, II, 39, cit. por DOELLINGER, Kirche und Kirchen, p. 209.

53. WILLIAM COBBETT, The protestant Refomation, letter I. Ver aí expostos os critérios objetivos que serviram de norma ao autor na organização do quadro acima.




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 Na França. o protestantismo nunca chegou a prevalecer; ainda assim a sua primeira irrupção foi assinalada por uma desorganização no ensino. "L'introduction du protestantisme en France eut une première conséquence, cele de retarder notablement la restauration de l'ensignement primaire en paralysant les efforts de l'Eglise et en annulant pour un temps les effets de l'invention de l'imprimerie".54 DE GEAUREPAIRE aponta-nos a causa desta decadência da instrução popular: "L'ensignement popuaire était g´néralement confié aux ecclésistiques et aux clercs qui aspiraient a le devenir; il était assem ordinairemente mis à la charge des fabriques e6t partout el était prcé sous la suveillance du clergé. Il est donc aisé de concevoir combien les écoles durent souffrer des attaques dirigées par ceux de la religion nouvelle contre de culte catholique".55

Na Suíça, da Universidade de Basiléia escrevia ECOMPÁDIO em 1529: "Quase todas as escolas foram fechadas, e nas que até aqui eram frequentadas por muitos alunos, vêm-se ao presente pouquíssimos, como se estivéramos em tempo de peste; assim foram as coisas e úteis envolvidas com as inúteis no desprezo geral".56 Poucos anos depois, outro pedagogo suíço assim frisava a incapacidade pedagógica e organizadora da Reforma: "Se quisermos levantar as escolar que até aqui tão deplorável e diabolicamente foram destruídas, dispersas e devastadas, devemos de novo restituir os ofícios eclesiásticos à sua natural dignidade".57

Na Dinamarca, as escolas decaíram a tal ponto que numa circular dirigida em 1594 pelo senado aos bispos (protestantes) do reino se comunicavam várias instruções para impedir a ruína geral dos estudos que não se podia negar ser iminente.

Na Suécia mesmos danos, mesmo influência perniciosa. Em duas epístolas dirigidas em 1533 e 1540 pelo rei à nação lemos o
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54. ALLAIN, L'instruction primaire en France avant la révolution, p. 44. Cit por A. PAQUET, L'Église et l'éducation, etc., Québec, 1909, P. 93.

55. Cit. por L. A. PAQUET, ibid.

56. THOMMEN, Geschichte der Universitaet Basel, 1532-1632, Basel, 1889, p. 305.

57. CONRADO CLAUSER, De education puerorum, a544, p. 94. J. B. GFALIFFE assim resume a ação de CALVINO sobre o progresso científico: "Genève comprimée et sterilisée par son depotisme, n'a produit pendant des siècles que des théologiens... Biern loin d'avoir accéleré - e da marche de son siècle, il le cloua se firmement à lui, qu'il resta stationaire pendant plus de 100 ans et ne put se remettre en mouvement qu'avec une peine et une lenteur inouies. Ja crois avoir étudié h'histoire aussi profundément et auseei consicencieusement que qui que ce soit, e très certainement je ne suis sous l'influence d1aucune partialité personelle". J. B. GALIFFE, Notices généalogiques, etc., III, 107-08.

tópico seguinte: "Estamos convencidos e vos informamos que as escolas nas cidades do reino se acham em deplorável estado de decadência. Onde outrora havia trezentos estudantes não há hoje mais de cinquenta. Grande número de paróquias existe, em que as escolas se acham completamente desertas, o que não pode deixar de causar imensos prejuízos ao reino".58





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O autor citado acaba de indicar-nos outra via por onde facilmente podemos julgar da decadência introduzida pela Reforma nos institutos superiores de ensino: o exame dos registros de matrícula. Ao unânime testemunho dos contemporâneos acrescentemos a aridez eloquente dos algarismos.


A universidade de Colônia, que no fim da idade média era a mais célebre das universidades renanas e chegara a contar cerca de 2.000 estudantes, com a revolução político-religiosa entrou rapidamente a decair de sua antiga grandeza. Em 1521 só se acham inscritos 251 alunos, em 1527, 72 e em 1534 apenas 54!


Eufurt era outro centro intelectual que desempenhara importantíssimo papel na evolução espiritual da Alemanha. Consultemos-lhe as matrículas. Em 1520, encontramos 311 estudantes; no ano seguinte esse número baixa a 120, em 1522 a 72, para conservar-se até 1527 abaixo de 14. "Todos os estudos científicos jazem por terra, escrevia HENRIQUE HERBEROLD, reitor da Universidade, as honras acadêmicas são desprezadas, na juventude estudiosa desapareceu todo o pudor". O próprio LUTERO, lembrando-se dos tempos de sua juventude, quando estudava em Erfurt, confessava mais tarde: "Tal era outrora a consideração e a fama de Universidade de Erfurt que, em seu confronto, todas as outras não passavam de pequenas escolas; hoje, desapareceu toda essa glória e majestade; a Universidade está inteiramente morta". 59


Em Leipzig, a matrícula atingia nos anos de 1507-1510 a elevada cifra de 1948 estudantes; em 1517-1510 desde a 1.445; em 1527-1530 a 419; em 1537-1540 a 686, número esse desconhecido nos anais da Universidade havia mais de um século.


Em Rostock a inscrição de novos estudantes é também índice da decadência. Em 1524 inscrevem-se apenas 44 estudantes, em 1525, 15 e nos anos seguintes apenas 8!
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58. S. THYSELIUS, Unkuden z. Schwed. Ref. - Gesch, unter Gustav I Wasa no Zeityschrift fuer hist. Theologie, de Niedner, 1847, pp. 226 ss., 244.

59. Erl. LXII, 187.





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A universidade de Wittemberga, quartel-general do reformador, contava na primeira metade do século XVI cerca de 3.000 estudantes; em 1598 eram apenas 2.000, e em 1613, 786.


Mesma decadência em Inglostadt e Francoforte. Compreende-se agora o juízo severo de R. WORTHER, teólogo suíço, que visitou os institutos superiores de ensino da Alemanha e, em 1568, escreveu as suas impressões: "As universidades alemãs acham-se ao presente em tal estado, que, fora a ignorância e negligência dos professores e a despudorada imoralidade que nelas reina, nada há digno de atenção.60

À vista de todos estes documentos, nenhum leitor sensato poderá ainda duvidar da causa deste descalabro geral dos estudos nos países reformados. A indisciplina e desregramento de costumes em professores e alunos foram a causa imediata, a pregação dos reformadores que assoalhavam uma doutrina imoral e desprestigiavam a ciência, a causa remato. Tal é a lição que se desprende espontânea do exame dos depoimentos contemporâneos.


A corrupção de costumes na juventude, a impaciência de disciplina não se conciliam com a aplicação ao estudo e o amor desinteressado da ciência. Colégios e universidades se haviam convertido em focos de dissolução. Na própria Saxônia, a Universidade de Wittemberga, onde dogmatizava LUTERO, era tida como sentina [Foco de vícios e de torpezas] pestilencial (Faetudan ckican duabiku) e dizia-se às mães que melhor fora apunhalar os próprios filhos que mandá-los lá a estudos.


Num discurso à Universidade, dia MELANCHTHON em 1527: "Quando considero como decaiu o pudor e domina a insolência, aperta-se-me de dor o coração. Nunca se mostrou a juventude tão petulante contra as leis. Agora só quer viver segundo o capricho, não se submete a ninguém, surda à palavra de Deus e às leis". Quatro anos mais tarde, num exortação aos estudantes: "Não é vontade de Deus que vos ajunteis aqui como uma multidão de ébrios para bacanais ou como centauros para bródios [festim de comes e bebes]".61

JOAQUIM CAMERÁRIO, outro protagonista da Reforma, escrevia em 1536 que muitas vezes lhe tinha assaltado a dúvida "se não que só parecem destinados a asilos de pecados e de vícios; quisera falar contigo de viva voz sobre essas coisas, porque
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60. Ms. Bibl. Monac., n. 175. DOELLINGER, Die Reformation, I(2), 509.

61. Corpus Reformatorum, X, 934, 939.





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não são destituídas de fundamentos as queixas" E lembrando-se dos tempos de sua juventude escrevia ainda o célebre filólogo alemão em 1535: "A educação e a vida são hoje muito diferentes do que na nossa puerícia"; e em 1561: "entibiou o fervor dos estudos: já não há quem deles se ocupe com seriedade; correm todos temerariamente aos empregos públicos e tudo se governa e administra de tal jeito que os espíritos reflexivos não podem deixar de temer a ruína iminente das instituições liberais e dos estudos de erudição".62

GLAREANO, professor da universidade de Friburgo, em carta de 21 de janeiro de 1550 ao amigo Egígio Tschudi queixava-se: "A juventude de hoje é tão pervertida que se assemelha à dos tempos de Sodoma e Gomorra. Embriaguez, infidelidade, irreverência aos santos e desprezo de Deus apoderaram-se de todos os espíritos". Três anos mais tarde ao mesmo amigo: "O temor de Deus desapareceu da Alemanha; a gente tem a palavra de Deus nos lábios e Satanás no coração".63

Em Thorn o colégio dos professores assim informava o conselho da cidade em 1588: "Não é mister descrever por miúdo os males de que adoecem as escolas; são patentes a todos. A vida viciosa e o desaparecimento completo do pudor doméstico são a fonte de todos os outros males".64


Não exagerava LUTERO, quando em carta ao príncipe Jorge de Anhalt dizia: "Vivemos em Sodoma e Gomorra; de dia para dia tudo vai de mal a pior".65 Sodoma e Gomorra é de fato a comparação que ocorre mais frequente na pena dos contemporâneos para descrever o dilúvio de corrupção que alagava o país e no qual afundava principalmente a juventude escolar.


Mas o exemplo vinha de cima. Se os estudantes eram devassos e indisciplinados, os professores não eram menos negligentes nos seus deveres profissionais.


De Rostock escrevia JOÃO CULMANN em 1555: "impossível fazer a visita de todo o Mecklemburgo; os professores estão, quase todos, ausentes; aqui há apenas 100 estudantes e estes ameaçam também
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62. Cfr. estas e outras citações de CAMERARIUS apud DOELLINGER, Die Reformation, I(2_. 524. 528; LUTERO também confessa a diferença dos tempos de sua juventude: "quando eu era menino, escrevia ele, corria pelas escolas o provérvio: non minus est negligere scholarem quam corrumpere virginem... e este era então o pecado que se julgava mais grave". Weimar, XV, 33.

63. SCHREIBER, Henrich Lorit Glareanus, seine Freunde und seine Zeit, Freiburg i. B., 1837, pp. 89-90.

64. STROBAND, Instiltutio literata, III, praef. 3, a 3, d. 4. b.

65. DE WETTE, V, 615.






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se dispersar".66

Passa-se meio século e Rostock não melhora. É de 1604 esta informação de PEDRO FABRICIUS ao seu amigo Jorge Calixto: "Não pode haver maior indolência do que a que domina aqui em todas as faculdades. Professores há que há três anos têm esse título e ainda não fizeram uma só preleção e nem mesmo puseram os pés numa aula".67 Em 1584 o duque GUILHERME V visitou pessoalmente a universidade de Ingolstadt. Depois de lembrar quanto fizera para elevar o nível do estabelecimento, deplora que todos os seus esforços "na maior parte dos professores não tenha produzido resultado algum; não só não melhoravam, mas eram agora mais descuidados e negligentes que em nenhuma outra época".68




Sobre a pregação das novas doutrinas pesa, em última análise, a responsabilidade desta deplorável decadência da instrução. Navegando na esteira sulcada por LUTERO, muitos de nossos apóstolos iniciaram uma verdadeira campanha contra as escolas. Eram fundações católicas; bastava para se tornarem alvo dos seus ódios e assaltos. Em Vittemberga, berço do protestantismo, os protestantes GEORGE MOHN e GABIEL DÍDIMO proclamaram do alto do púlpito que o estudo das ciências era inútil e até pernicioso; que não se podia fazer ação mais meritório que destruir escolas e academias. Resultado; a escola da cidade transformou-se em padaria.69



Em Basiléia, GLAREANO fazia observação análoga: "Muitíssimos pregadores se esforçaram ostensivamente por implantar sobre as ruínas da Igreja e a ciência uma espécie de oclocracia [Sistema de governo em que predominam as classes populares] ou domínio
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66. GOERGES, Lukas Lossius em Schulmann des 16 Jahhunderts, Lüneburg, 1884, 10 A. 2.

67. C. L. TH. HENKE, Georg Kalixtus und seine Zeit, Halle, 1853, I. 86, p. 2.

68. PRANTL, Geschichte der Ludwig-Maximilians- Universitat in Ingolstadt, Landshut und München, Müchenm, 1872, II, 320-21.

69. Epístola de Torgaviensibus Antistibus, Wittembergae, 1744, p. 16.

70. WINER, De facultatis evangelicae in Universitate Lipsiae originibus, Lipseae, 1839, 23.





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da plebe ignorante, sob a direção de predicantes demagogos. Também aí se professava que o estudo do latim e do grego era inútil e até nocivo ao cristão. Os mestres de boas letras eram acusados ao povo como fautores de paganismo e de tendências pagãs.71

Em Brandeburgo, o margrave, depois de deplorar a ruína dos estudos e a volta à antiga barbárie, publicava uma ordenação contra os pastores, responsabilizando-os do presente estado de coisas, porque "descreditaram a ciência e impeliram a juventude a dar-se às profissões manuais".72 "Apenas, diz URBANO RÉGIO, ouviram muitos que o cristão é imediatamente instruído e iluminado por Deus, entraram a considerar o saber como inútil. Daí a persuasão de alguns que, quanto mais ignorantes, maiores títulos julgam possuir aos dons do Espírito Santo".73


Agora, o contraste. Enquanto a Reforma assim envolvia a Alemanha nas sombras de um pavoroso eclipse, a Igreja organizava uma cruzada de luz para salvar a civilização européia ameaçada. As ordens religiosas, que, nos planos da Providência, surgem sempre para ocorrer às exigências da Igreja, puseram logo ao seu serviço legiões e legiões de sábios e educadores. Teatinos, barbanitas, oratorianos, somascos, lazaristas, irmãos da Doutrina cristã, beneditinos reformados e jesuítas desceram a campo para salvar pela instrução e pela fé as almas seduzidas pela ignorância e pela heresia. Não entraremos aqui em pormenores sobre a ação civilizadora dos novos apóstolos. Diremos somente que em menos de 50 anos os jesuítas haviam coberto de colégios os territórios assolados pela protestantismo. Colônia (1544), Treviri (1561), Mogúncia (2581), Augsburgo (1582), Dilinga (1563), Heiligenstadt (1575), Coblença [imagem à direita] (1282), Panderbon (1585), Würsburgo (1588), Münster e Salisburgo (1588), Bamberg (1595), Antuérpia, Praga e Posen possuím os mais célebres dos seus estabelecimentos de ensino.


A elevada frequência, que para logo atingiram esses colégios, é prova evidente do zelo da nova ordem pela difusão do ensino e da excelência dos seus métodos pedagógicos. Em Colônia, onde se ensinava não só o latim e o grego, mas ainda as matemáticas e a astronomia, havia, em 1558, 500 externos e 60 internos. Vinte anos mais tarde o número dos cursos no ginásio foi elevado a 7 e a matrícula subiu a 840. Em 1581, entre internos e externos, havia mais de 1.000
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71. Ap. DOELLINGER, Die Refomation, 6. I (2), pp. 472-3.

72. Relighionsakta, 6. XI, N. 64, 66.

73. URBANI REGH, Formulae quaedam caule loquendi, Regiomaonti, 1672, p. 13
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alunos. Neste mesmo ano Coblença e Heiligenstadt contavam cerca de 200 estudantes, Mogúncia 700 e Trier 1.000. Em 1588, a escola catedral de Münster na Westfália [fig.à direita] passou às mãos dos novos educadores. Aí começaram a ensinar a 300 alunos; dois anos depois eram 900, em 1592, 1.100 e, pouco antes da guerra dos trinta anos, 1.300. Na Baviera, sobressaíam, entre outros, os colégios de Paderborn, Augsburgo e Munique. O primeiro, que era o ginásio da cidade, foi confiado aos jesuítas em 1585 com 140 alunos, que no fim do mesmo ano já eram 300, e no ano seguinte 400. O ginásio desenvolveu-se tão rapidamente que, em 1614, foi elevado à categoria de Universidade (mas sem faculdade médica). O colégio aberto em Augsburgo em 1582, sete anos depois foi elevado a liceu, atingindo logo uma frequência média de 500 a 600 estudantes. O progresso não foi menos rápido em Munique: nos primeiros anos a frequência oscilou entre 300 e 500; em 1587 subiu a 600, em 1589 a 800 e em 1600 a mais de 900.


Em todos estes estabelecimentos de ensino floresciam os bons costumes, vigorava a disciplina e medravam as boas letras. Não serei eu que o há de dizer. A palavra aos protestantes contemporâneos. Em 1581, ANDRÉ DUDITH escrevia de Breslau a um amigo: "Não me admiro ao ouvir que todos afluem aos colégios dos jesuítas. Possuem um saber variado, são eloquentes, ensinam, pregam, escrevem, disputam, dão à juventude instrução gratuita e com um zelo incansável; sobretudo, recomendam-se pela modéstia e vida moral incontaminada".74 Alguns anos mais tarde, o célebre H. GRÓCIO, lançando um olhar retrospectivo sobre a atividade pedagógica dos filhos de S. Inácio, assim se exprimia: "Os jesuítas são tidos em grande consideração no mundo pela santidade da vida e pelo êxito com que instruem a mocidade nas velas letras. Em 100 anos, desde sua fundação, a Companhia produziu mais homens célebres em todos os ramos do saber e eminentes na pureza da vida que nenhum outra sociedade".75

Típico, porém, sobre todos é o testemunho de NATHAN CHYTRAEUS. Investigando as causas da decadância dos estudos entre os "evangélicos", assim se exprimia o célebre professor de Rostock, num oração fúnebre pronunciada em 1578: "Confesso que me detive ante ________________


74. SUDHOFF, C. Olivianus und L. Ursinus, Elberfeld, 1857, 504-5.

75. Cit. na obra Die Jesuiten nach dem Zeugnisse berühmter männer, Regenburg, 1891, p. 242. O gramático brasileiro, porém, vê mais longe. Para ele: "os colégios dos jesuítas são o estímulo intelectual e moral da juventurde". Que quer? São modos de ver.





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a opinião dos que atribuem este triste estado de coisas aos decretos da Providência. Mas semelhante suposição é evidentemente uma impiedade, como aliás o demonstra suficientemente a prosperidade de algumas outras escolas em que vigem todas as boas usanças que asseguram a ordem e a discipina. De fato, porque motivo poderiam os colégios dos jesuítas, não obstante as distâncias que os separam, assinar-se pela boa ordem, pela disciplina, pelo zelo de todos os cumprimentos dos próprios deveres, se o mau estado das nossas universidades fosse realmente efeito da vontade divina? E por que não poderemos nós, que caminhamos à viva luz do Evangelho, fazer o que fazem os jesuítas que ainda vivem nas trevas?" 76 Não nos é possível negar que somos responsáveis pelos males que nos afligem. Comparai o que se vê hoje com o zelo e ardor para o bem que animavam os nossos antigos predecessores. Quem poderia ler sem admiração estes estatutos em que ainda respira a sua sabedoria? etc., etc." 77




Se dos estudos literários e científicos passarmos à cultura das belas artes, facilmente verificaremos que neste campo foram ainda mais profundas as devastações da Reforma. O protestantismo não compreendeu o pensamento sublime da Igreja de pôr ao serviço da religião o que de mais fino e delicado produziu o espírito humano no domínio do belo. O templo católico é o santuário da beleza. A arquitetura, a escultura, a pintura, a decoração, a música, a eloquência aí se estreitam na mais harmoniosa aliança para elevar a alma do crente a união com Deus que é eterna Verdade e Beleza eterna.


Estéreis como a revolta e áridos como o erro, os filhos de LUTERO não encontraram no coração gelado e ressequido pelo ódio a fibra humana, que vibrasse em uníssono com estas harmonias divinas da criação. O primeiro grito dos que protestaram foi um grito contra a arte; seus primeiros atos, atos de vandalismo atroz. Precipitaram-se sobre os nossos monumentos religiosos, os nossos altares, as nossas estátuas e arrasaram tudo: "Imbuída do espírito do seu fundador, monge invejoso e bárbaro, diz CHATEAUBRIAND, a Reforma declarou-se aberta inimiga das artes. Riscando, por assim dizer, a imaginação das faculdades humanas, cortou as asas ao gênio e tornou-se pedestre... Se a Reforma ao nascer fosse coroada de pleno
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76. Já dizia Isaias: Ponentes tenebras lucem et lucem tenebras. v. 20.

77. Memorae philosophorum, oratorum, etc., ed. Rollius, I, pp. 106-115, 140.





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êxito, teria determinado, ao menos por certo tempo, um regresso à barbárie".78

É realmente incalculável o dano causado às belas-artes pelos discípulos do grande apóstata."Os prejuízos em ouro e prata produzidos pelas suas pilhagens, escreve PRESCOTT, podem ser avaliados. As construções tão cruelmente mutiladas puderam ser retocadas pelo cinzel do arquiteto. Mas quem poderá calcular a perda irreparável ocasionada pelo destuições do manuscritos, estátuas e pinturas? É um fato doloroso que os primeiros esforços dos refomados fossem em toda a parte dirigidos contra este monumentos dos gênios, que haviam sido elevados e mantidos afetuosamente pelo patrocínio do catolicismo".79 "Os Países-Baixos possuíam um número extraordinário de igrejas e mosteiros. A sua fina arquitetura e as suas bem trabalhadas decorações eram o sinal precoce do desenvolvimento intelectual nestas regiões. Tudo o que inventara a ciência e criara a arte, tudo o que produzira a mecânica, e prodigalizara a riqueza, havia sido recolhido nestes templos magníficos. Ora, no espaço de sete dias e sete noites, desencadeou-se o terrível ciclone que destruiu todos estes tesouros... As artes por toda a parte deploram os seus despojos... Apenas uma ou outra estátua e pintura escaparam à ruína. O número de igrejas profanadas pelas turbas de calvinistas fanáticos nunca pôde ser contado. Na só província de Flandres foram saqueados 400!"80

Eis as benemerências da Reforma no culto das artes.





A causa está julgada. Não declamamos. Fomos fiéis ao nosso programa: reconstruir a história em toda a singeleza de sua verdade, lembrando fatos incontestáveis e citando documentos que não admitem réplica. Quase sempre cedemos a palavra a testemunhas insuspeitas. A conclusão que se impõe a todos espíritos desapaixonados é a que expressou CARLOS VILLERS, aliás advogado ardente da Reforma: "Somos constrangidos a convir que depois da irrupção dos povos do Norte sobre o império de Roma, nenhum acontecimento
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78. CHATEUBRIAND, Etudes historiques sur la chute de l"Empire Romain et la naissanche et progrès du Chstianisme. Ver toda esta página citada por BALMES, El protestantismo, c. 72.

79. W. H. PRESCOTT, History of the Reign of Fhilip the Second, Leipzig, 1857, t. , p. 30-31.

80. MOTLEY, History of lhe Rise of the Dutch Republic, t. I, c. 7.



A REFORMA E A CULTURA INTELECTUAL - Pg 371


causou à Europa estragos tão longos e tão universais como a guerra acesa ao fogo da Reforma. Sob este aspecto é infelizmente verdadeiro que ela retardou o progresso da cultura geral".81


A época era para grande vôos na senda do progresso. A florescência das universidades, a invenção da imprensa, a emulação dos doutos, as novas descobertas científicas, os tesouros acumulados por tantas gerações de investigadores e filósofos, a renascença da literatura clássica, tudo preparava para a cristandade uma época de luzes e de glórias. A explosão da revolta religiosa sufocou o grande movimento nascente e envolveu a Europa setentrional num manto de trevas e de sangue. Enquanto as nações que a abraçaram e promoveram, mergulhavam por quase dois séculos na ignorância,82 a Igreja coroava o seu trabalho multissecular nos países que lhe ficaram fiéis ou que cedo rejeitaram o veneno dos inovadores. A Itália produzia o séculos de Leão X, a Espanha e de Carlos V, a França e do Luís XIV.


Concluamos com BALMES: "A inteligência, o coração e a fantasia não devem coisa alguma à Reforma: antes que ela nascesse já essas faculdades se desenvolviam vigorosas; depois de nascido continuaram no seio do catolicismo com o esplendor e a glória de outrora. Homens ilustres, ornados com a auréola com que se cingiram a fronte, aplaudidos pro todos os povos cultos, campeiam nas fileiras católicas. Caluniou quem disse que a nossa religião tende a pear e entenebrecer a inteligência  Não; é impossível; filha da luz, não pode produzir trevas: feitura da própria verdade, não precisa fugir os raios do sol e abater-se nas entranhas da terra, mas pode caminhar à claridade do dia, afrontar a discussão, congregar em redor de si os espíritos na certeza de lhes aparecer tanto mais pura, tanto mais bela, tanto mais admirável, quanto mais atentos e mais de perto a contemplarem".83
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81. CHARLES VILLERS, Essai sur l1espret de la Réforme de Luther(5), Paris, 1851, p. 227.

82. Por onde se vê que o progresso científico da Alemanha moderna nada tem que ver com o protestantismo. As ciências florescem hoje na Alemanha, como na França ou no Japão: por impulso geral da civilização contemporânea, fruto da semeadura feita pela Igreja católica nos séculos passados e transplantado até às regiões pagãs. Na história da cultura científica, à Reforma só cabe o papel inglório de haver retardado o momento atual.

83. BALMES, El protestantismo comparado com el catholicismo, c. 72.

Bibliografia. Sobre a decadência intelectual produzida pela Reforma cfr. DOELLINGER, Kirche und Kerchen, München, 1861, p. 209 ss.; JANSSEN, Geschichte des deutschen Volkes, Freiburg i. B., Herder, 1897, t. VII(13-14); AUGUSTE NICOLAS, Du protestantisme de toutes les héresies dans leur rapport avec le socialisme, l. III, c. 3; DOELLINGER, Die Reformation, ihre innere Entwichelung und ihre Wikungen, 3 vols. Regensburg, 1846-48, 6. I, 408-582;ZAHN, Science catholique et savant catholiques, trad. do inglês por J. Flageolet, Paris, Lethielleux, 1895, 1. 4, c. 2, pp. 249-285; L. A. PAQUET, L'Eglise et l'Education à la lumière de l'hsitoire et des principes chrétiens, Québec, 1909, c. IX, PP. 79-97.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

IGREJA - IGNORANTE E OBSCURANTISTA - IRC/LCP III-II-1

Para averbar a Igreja católica de ignorante e obscurantista fora mister cerrar os olhos obstinados à luz da evidência, e rasgar, uma por uma, todas as páginas dos seus fastos gloriosos. Os adversários não recuaram ante a enormidade de semelhante delito. De que mal não é capaz uma vontade pervertida, um coração obcecado pelo fumo das paixões? Fecharam as pupilas doentias ao brilho que as molestava, adulteraram os fatos do passado, negaram as evidências do presente ao grande mundo das pequenas inteligências, que vivem da meia luz emprestada pelas obras de fancaria, pelos libelos difamatórios, pelos folhetins de uma propaganda sem consciência, clamaram que a Igreja era inimiga das luzes e do progresso, da ciência e da filosofia, da cultura e da arte.

A IGREJA E A CULTURA INTELECTUAL - Pg 338/339




LIVRO III



A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO

Capítulo II

A IGREJA, A REFORMA E A CULTURA INTELECTUAL

§ 1. - A Igreja e a cultura intelectual

SUMÁRIO - Duas espécies de cultura. - Pregação e catecismo.- Instrução popular; escolas primárias. - Estudos superiores; criação das universidades.


A Igreja católica é a verdade. Um oceano de resplendores banha-lhe o berço. Uma imensa claridade benfazeja segue-lhe a trajetória luminosa no firmamento da história. Filha da luz, ela vive na luz como em seu elemento natural, respira a luz como o oxigênio vivificador de sua existência, esparge a luz como efusão espontânea de sua atividade fecunda.

Para averbá-la de ignorante e obscurantista fora mister cerrar os olhos obstinados à luz da evidência, e rasgar, uma por uma, todas as páginas dos seus fastos gloriosos. Os adversários não recuaram ante a enormidade de semelhante delito. De que mal não é capaz uma vontade pervertida, um coração obcecado pelo fumo das paixões? Fecharam as pupilas doentias ao brilho que as molestava, adulteraram os fatos do passado, negaram as evidências do presente ao grande mundo das pequenas inteligências, que vivem da meia luz emprestada pelas obras de fancaria, pelos libelos difamatórios, pelos folhetins de uma propaganda sem consciência, clamaram que a Igreja era inimiga das luzes e do progresso, da ciência e da filosofia, da cultura e da arte.

Que fazer ante esse atentado sem nome? Redarquir violênica com violência, opor declamação a declamação, refutar invectivas








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com invectivas? Não. Bastará reconstruir a história em toda a singeleza da sua verdade, lembrando fatos incontestáveis e citando documentos que não admitem réplicas. Para as almas desapaixonadas a verdade tem por si as clarezas irresistíveis da evidência. Para os espíritos partidários não há fulgor meridiano que não eclipsem os vapores partidários do preconceito pertinaz.

Esbocemos em rápido escorço, esta reconstrução histórica de luzes e de glórias.

Distingo duas espécies de cultura intelectual: a cultura religiosa, essencialmente necessária a todo o homem para conseguir os destinos divinos de sua natureza e a cultura profana e acidental que é um dos primeiros fatores de sua felicidade terrestre e o instrumento mais poderoso que lhe deu o Criador para firmar o centro de sua soberania sobre o mundo sensível.

É no campo da cultura religiosa que a Igreja exerce diretamente a sua ação civilizadora. Disse-lhe Cristo: ensinai a todos os povos. Ensinai-lhes, não a álgebra ou a astronomia, a química ou eletrotécnica, mas o resumo substancial destas verdades eternas, sem as quais o homem cessa de ser homem para baixar ao nível de um bruto aperfeiçoado. Ensinai-lhe a origem divina de sua existência, a sublimidade sobrenatural dos seus destinos, as grandezas dos mistérios cristãos. Dizei-lhe o que devem crer e o que devem esperar para conseguir um dia a felicidade suprema de uma vida melhor, sobre a qual já não tem poder as vicissitudes do tempo.





Eis o que é essencial ao homem. Possuísse ele a soma incalculável de todos os conhecimentos experimentais e ignorasse a substância destas verdades que lhe norteiam a atividade moral e religiosa, sua vida, sem destino nem ideais, não passaria de um grande erro que iria fatalmente terminar numa catástrofe irremediável. Oxalá não o houvessem olvidado tantas vezes os paladinos da instrução moderna que, esquecidos de Deus, de Cristo e da eternidade, julgaram haver achado o talismã da regeneração dos povos num punhado de noções literárias, geográficas e aritméticas.

À missão divina confiada pelo Salvador, a Igreja não foi infiel um só instante da sua existência. Apenas nascida, iniciou pela pregação este ensinamento popular das verdades mais sublimes, que durante séculos não soube inventar a sabedoria pagã, constrangida, na esterilidade de sua ação impotente sobre as turbas, a circunscrever o seu magistério a um círculo estreito de iniciados. A velhinha cristã, o humilde operarío cristão, assíduo às instruções do seu pastor, não saberá talvez soletrar as páginas de um jornal mas possui,



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com certeza infalível, um patrimônio de verdades sublimes de que se não podem gloriar os maiores gênios da antiguidade pagã.

Mais tarde, ela consubstanciou todos estes ensinamentos nas páginas de um livrinho maravilhoso. Nas torturas indizíveis de uma dúvida que lhe amargurava a existência, ninguém talvez melhor do que JOUFROY descreveu a fecundidade divina da ação universal do catecismo sobre as inteligências. Ouvi esta página célebre: "Il y a um petit livre qu'on fait apprendre aux engants et sur lequel on les interroge à l'Eglise. Lisez ce petit qui est le catéchisme.Vou y trouverez une solution de toutes les questyions que j'ail posées, de toutes sans exception. Demandez au chrétien d'où vient l'espéce humaine, il le sait. Demandez à ce pauvre enfant, qui de sa vie n'y a songé, porquoi il est ici-bas et ce qu'il deviendra àprès sa mort: il vous fera une réponse sublime qu'il ne comprrend pas (?!), maios qui est admirable. Demandez-lui pourquoi le monde a été créé, à quelle fin... pourquoi les hommes parlent plusieurs langues, pouquoi els souffrent, pourquoi ils se basttent et comment tout cela finirá, il le sait. Origine du monde, origine de l'espèce, questions de race, destinée de l'homme em cette vie et en l'autre, rapports de l'homme avec Dieu, devoirs de l'homme envers ses simblables, droits de l'homme sur la création, il n'ignore rien et quand il será grand, il n'hésiterá pa devantage sur le droit naturel, sur le droit politique, sur le droit des gens, car tout cela sort , tout cele décole avec clarté et comme de soi-même du christianisme".1

Mas a inteligência é a raínha das faculdades humanas; seu cultivo e desenvolvimento aliado à retidão da vontade é a maior perfeitão natural do homem. E a Igreja ama a natureza humana.Tudo o que engrandece, exalta e dignifica, constituiu sempre o objeto mais afagado de suas solicitudes maternas. E não é a cultura natural da razão o veículo expontâneo dos ensinamentos da fé? Não é a natureza estudada, conhecida, admirada, o espelho mais límpido das perfeições divinas? Não nos oferecem as harmonias da criação as mais belas analogias do mistérios altíssimos da graça? Almas apoucadas, espíritos tacanhos, entendimentos de meia luz estes que arreceiam nos progressos da ciência um estorvo natural às infaluências da religião. Não. Astrônomos, matemáticos, físicos, geólogos, historiadores, observai, numerai, investigai, descobri,
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1. Th JOUFFROY, Du problème de la destinée humane, em Mélages philosophiques, Bruxelles, 1834, pp. 361-2.


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criticai. Conscientes ou inconscientes das sublimidade de vossa missão, elevais o mais bela monumento à glória do Criador, fundamentais o mais inconcusso pedestal às verdades da religião revelada. Do vértice desta pirâmide, construída pelos maiores dentre os vossos gênios, 
eu sinto, na minha consciência cristã, que mais seguro e mais glorioso se me desprende o vôo para as alturas da fé, inacessíveis aos vossos instrumentos. Depois do heroísmo da caridade não conheço na terra espetáculo mais belo que a fronte do gênio, aureolada pelas glórias da ciência e modestamente curvada na penumbra do santuário ou no silêncio do genuflexório, absorvida ante as grandezas inefáveis da Divindade. AMPÈRE e PASTEUR, rolando as contas humildes de um rosário entre os mesmos dedos, que, no silêncio dos laboratórios científicos, tantos segredos arrancaram à natureza - cena de paraíso!

A Igreja divinamente inspirada compreendeu bem cedo a beleza deste espetáculo e ei-la desde o seu nascer, toda zelo, toda cuidados para cultivar e aperfeiçoar a inteligência do homem, ainda no domínio dos conhecimentos naturais.

Passai rapidamente sobre os primeiros séculos de sua existência. Vede-a de relance abençoando e santificando a filosofia dos JUSTINOS, dos ARISTIDES, dos ATENÁGORAS, que lhe vinha depor no regaço as mais delicadas flores da sabedoria pagã. Contemplai-a em Alexandria, em Bizâncio, em Antioquia e em Atenas abrindo universidades, fundando bibliotecas, educando os CLEMENTES e os ORÍGENES. Saudai, de vôo, esta plêiade de seus gênios, chamados AGOSTINHO, JERÔNIMO, CRISÓSTOMO, GREGÓRIO, ATANÁSIO, BASÍLIO e LEÃO que na literatura, no eloquência, na poesia, na filosofia, na teologia e na ética nos legaram o opulento patrimônio espiritual que enriqueceu todas as gerações da Europa cristã e que será lido, estudado e admirado até ao fim dos tempos.

Demorai-vos, porém, um pouco mais de sobremão em contemplar maravilhados a sua grande obra educadora nos séculos de crise para o progresso da humanidade. Com a irrupção quase simultênea das hordas barbáricas, caíram, desfeitos em pó, os últimos restos da civilização pagã. Instituições políticas e sociais, monumentos de arte, tradições antigas, tudo levou de roldão, no seu avançar irresistível, a imensa onda invasora. Neste novo ambiente social sem tradições literárias e científicas, começou a Igreja a desenvolver a sua grande atividade restauradora. Foi nos mosteiros dos seus religiosos, - oásis de paz semeados nos campos talados pelas novas raças a se entrechocarem em embates épicos, - que se preservaram


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da total ruína as obras-primas da antiguidade clássica. No silêncio destes asilos, protegidos e santificados pela religião, conservou-se o fogo sagrado da ciência. Daí, como de foco intenso, irradiaram as luzes que haviam de iluminar a nossa civilização. Admirável a obra científica realizada na obscuridade anônima do recolhimento por estes monges incansáveis, que empregavam as horas não ocupadas pela salmodia ou pelo sono escasso em transcrever e arquivar pacientemente a herança intelectual do passado!

Um só convento, asseverou o racionalista GIBBON, prestou mais serviços as letras que as duas Universidades de Oxford e Cambridge, juntas."Uma abadia, escrev por sua vez AGOSTINHO THIERRY, não era só um lugar de oração e contemplação, era outrossim um asilo público contra a invesão da barbárie. Refúgio dos livros e das ciências, nelas havia também oficinas de toda a espécie, e suas terras eram modelos de herdades. Às suas escolas vinha instruir-se os conquistadores e colonizar o próprios domínios".2

A Itália, sede do Papado, não viu nunca as sombras da ignorância descerem sobre os seus filhos. Dela se propagou o movimento da renascença literária por toda a Europa. Já no século VI o concílio de Vaisson invoca o exemplo antigo da Itália para lembrar aos sacerdotes das Gálias o rigoroso dever de instruir e educar a juventude. Mais tarde, quando CARLOS MAGNO visitou a península, ficou profundamente impressionado pela vitalidasde literária que florescia nas suas escolas e concebeu o grandioso projeto de introduzir entre os seus guerreiro o culto mais humano dos livros e das ciências. De volta ao império, ordena pelas célebres capitulares de 797 que por toda a parte se instituam escolas. E onde foi ele buscar os seus professores? Entre o monges e os sacerdotes. FRIDEGÍSIO, RABANO MAURO e principalmente ALCUÍNO, monge de York, foram a alma da renascença carlovíngia. E onde se abriram as novas escolas? Ao pé dos mosteiros e das igrejas. Multiplicaram-se, então por toda a Europa as escolas monacais, anexas aos conventos, tendo cada uma duas seções, uma para os religiosos, outra para os
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2. A. THIERRY, Essa: sur l'histoire du diters état, ch. I, ap. HETTINGER, Apologie des Christentums(0), Freiburg, i. B., 1908, t. V, p. 392. "On peut le dire sans exagération: l'esprit humain proscrit, battu de la tgormente se régia dans l'asile des églises et des monastères; il embrassa em suplliant les autels, pour vivre sous leur abri et à leur service, jusqu'à ce qje des temps meilleurs lui permissent de reparaitre, dans le monde et de respirer em plein air". GUIZOT, Histoire de la civilisation em France, 6. I, p. 137.




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leigos; as escolas adidas às sedes diocesanas, contendo igualmente duas subdivisões, repectivamente frequentadas aos clérigos e aos seculares. Além destas duas espécies de escolas, de muito, as mais numerosas, acompanhando a corte, fundaram-se também as escolas palatinas, regidas por membros do clero.3

Toda legislação eclesiástica deste tempo respira a grande solicitude da Igreja pela instrução e educação das massas. No direito econômico se encontra com admirável energia condensado todo o seu pensamento a este respeito: "A ignorância é a mãe de todos os erros. A ignorância é apenas telerável num leigo; num sacerdote é inexcusável, imperdoável". Toda a atividade foi sempre norteada por este ideal. No século VIII, Teodolfo, bispo de Orléans, baixava o seguinte decreto: Os sacerdotes mantenham escolas nas aldeias e nos campos; se qualquer (quislibet) dos fiéis lhes quiser confiar os seus filhos para aprender as letras, não os deixem de receber e instruir, mas ensinem-lhes com perfeita caridade. Nem por isso exijam ssalário ou recebem recompensa alguma, a não ser, por exceção, quando os pais voluntariamente a quiserem oferecer por afeto ou reconhecimento".4 Este decreto foi adotado, palavra por palavra, pelos regulamentos eclesiásticos da Inglaterra.

Leis semelhantes enunciadas em termos análogos encontram-se em quase todos os concílios da época. Lembremos os de Aix-La-Chapelle (789), Thioville (805), Mogúncia (813), Roma (826), Paris (829), Valência (855). O 3.º concílio ecumênico de Latrão
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3. Na sua coleção de capitulares do grande imperaedor, escreve ANSEGÍSIO, abade de S. Vaudrile: "Carlos quis que se abrissem escolas em todos os mosteiros e bispados a fim de que os filhos dos homens livres do mesmo modo que os filhos dos servos aprendessem gramática, música e aritmética". "Um sem número de fatos atesta que os mosteiros eram, em toda a parte, focos de educação não somente para os jovens clérigos senão também para a juventude leiga".MONTALEMBERT, Les moines d'Ocident, Paris. 1877, t. VI, P. 176. Falando do estado das letras antes de Carlos Magno (do séc.VI ao VIII) GUIZOT se admira "de la merveilleuse activité intelectuelle de cette époque et du grand nombre des oeuvres litéraires qu"elle a produites"...... E o progresso acentuou-se com o tempo. Nos sécs. X e XI a só escola de Fleury contava cinco mil estudantes. Sobre a difusão do ensino lna Europ nos primeiros séculos da idade média e os serviços prestados pelo monges às ciências, às letra, à educação e à história, cfr. MONTALEMBERT, Les moines d'1Occident, t. VI, I, XVIII, c. 4, pp. 142-238; frederico ozanam, Etudes germaniques, Paris, Lecoffre, 1855, t. IV, c. 99, pp. 388-553 (t. IV das obras completas). Resumindo, a influência social dos monges anglo-saxônios diz MONTALEMBERT: "Alegramo-nos de haver dado quase a cada página destes volumes a demonstração do que fizeram [os monges] para a nutrição intelectual da Inglaterra. Vemos que entre os anglo-saxões, como entre os celtas da Irlanda, da Caledônia, da Câmbria, os mosteiros eram os únicos centros de educação religiosa e liberal e que a instrução neles tanto procurada era a um tempo muito vária e muito literária". Op. cit. t. V, i, xvi, C. ÚNICO.

4. SIRMOND, Concilia Galliae, 215



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reunido em 1179 no seu cânon 18 assim legislava para a Igreja universal: "A Igreja de Deus, como mãe piedosa tem o dever de velar pelos pobres aos quais pela indigência dos pais falecem os meios suficientes, a fim de que possam facilmente estudar e progredir nas letras e nas ciências. Ordenamos, portanto, que em todas as igrejas catedrais se proveja um benefício conveniente a um mestre, encarregado de ensinar gratuitamente aos clérigos dessa igreja e a todos os alunos pobres".5

O resultado desse esforço imenso para desbastar a rudeza daquelas raças foi povoar toda a Europa de institutos de ensino primário. Onde se elevava um templo, abria-se-lhe ao lado uma escola. Graças a este zelo incansável, a França, a Inglaterra e a Alemanha viram florescer em seu solo estes seminários ferazes das ciências e das artes.

Na sua obra L'éducation populaire dans l'Allemagne du Nord, E. RENDU, inspetor geral da Universidade de França, assim se exprimia a respeito da Alemanha nos tempos que precederam imediatamente a Reforma: "O catolicismo enchera a Alemanha, como o resto da Europa, de escolas populares; decretara que o clero admitisse nestas escolas os filhos dos servos e dos livres; que todo o sacerdote encarregado de cura das almas exercesse o magistério ou por meio de um clérigo; que os bispos nas suas visitas procurassem abrir escolas onde não existissem, que o pastor de cada paróquia subministrasse aos pobre ensino gratuito... A Igreja católica fizera mais. Antecipando o pensamento de S. João Bastista de la Salle, os dicípulos de Gerardo van Coote ensinavam aos pobres a ler e escrever, a religião e as artes mecânicas. Dos países Baixos, onde havia sido fundada a Ordem, levaram estes irmãos no séculos XIV a luz da ciência e da caridade a ambas as margens do Reno, à Westfália, à Saxônia, à Pomerânia, à Prússia e à Silésia. No mesmo tempo os mosteiros de religiosas subministravam às filhas do povo as professoras que a Reforma lhes havia de tirar... Destarte o catolicismo havia lançado a pedra angular do ensino, constituindo assim para o povo como para os literatos a base de civilização gemânica".6
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5. MANSI, XXII, 117-228. O 4.º concílio de Latrão confirmou este decreto e o ampliou a todas as igrejas que se achassem em condições de manter um professor de gramática; MANSI, XXII, 909.

6. E. RENDU, De l'éducation populaire dans l'Allemagne du Nord, Paris, 1855, pp. 6-7.




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PAULSEN não fala diversamente: "Na idade média a cultura foi popular. Todos tinham uma língua, uma fé, uma poesia, uma Igreja, uma arte; do século XV em diante observa-se um desmembramento do corpo social em doutos e ignorantes, ou, como hoje se diz, em pessoas cultas e incultas. A renascença foi sua causa próxima ou a sua primeira manifestação".7

Concluamos com o célebre protestante HURTER na sua clássica História de Inocêncio III: "Só os espíritos superficiais, que nunca lançaram um olhar sobre os documentos da época, ou os espíritos orgulhosos, obcecados pela pretendida superioridade de seu tempo ou pelo ódio sistemático, ousam acusar os Papas da idade média de haver favorecido a ignorância".8 Com HURTER afinam todos os autores que conhecem a história. Citarei um só, em que não pode cabver suspeição de parcialidade, o Sr. LOUANDRE: "Nous entendons répéter chaque jour, même par des lettrés, que le moyen âge a systématisé l'ignorance, que le clergé abêtissait les populations pour les dominer, que les nobles ne savaient pas même signer leur nom et qu'ils s'en faisaient honneur. Les recherches de M. de Beaurepaire sur l'instruction publique dans la diocèse de Rouen, l'Histoire des Écoles de Montauban du Xe au XVIe suècle et quelques autres monographies locales montrent ce qu'il en est de ces assertions... L'ancienne France ne comptait pas moins de 60.000 écoles; chaque ville avait ses groupes scolaires, comme on dit à Paris, chaque paroisse avait son pédagogue, son magister, comme on dit dans le Nord. Au XIIIe siècle, tous les paysans de la Normandie savaient lire et écrire... Avant 89 il n'éxistait pas moins de dix-neuf villes d'Universités ou se presaient de nombreux élèves. Les nobles pas plus que les villains n'étaient hostils au savoir et aux lettres... L'enseignement public était três florissant au moyen âge... La guerre de cent ans et les guerres de religion lui portèrent un coup fatal".9 .

Que dizer agora do nosso gramático que, sem pestanejar, afirmar muito seriamente aos seus leitores que "a organização da instrução popular data da Reforma", p. 121, e que "o analfabetismo é a vida cancerosa da Igreja Romana; a ignorância, a condição do

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7. PAULSEN, cti. por SCHANZ, Apologie des Christientums(3); trad. ital. de Pellegrinetti, Firenze, 1910, t. III, p. 187.

8. HURTER, Geschichte Papst Innoc. III,. Hamburg, 1835. Trad. ital. de Cesare Rovida Milano, l1840, 6. III, p. 496).

9. CH. LOUANDRE, Les études historiques en France depuis la guerre, na Revue des Deux Mondes, 15 janv. 1877, pp. 452-3.



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seu florescimento"?, p. 126 Evidentemente, ou este homem calunia ou nunca abriu um livro sério de história.

Até aqui quase só nos ocupamos das solicitude da Igreja em instruir as multidões, os pequeninos e os pobres. Bem cedo, porém, ela se esforçou por alargar os horizontes das cultura intelectual e criou as universidades, sementeiras fucundas de homens ilustres vastos laboratórios da ciência moderna.

Datam do século XII (c.1100) as primeiras universidades erigidas na Europa. O seu número multiplicou-se rapidamente em toda a cristandade. Em estudo magistral sobre essa matéria,10 DENIFLE conta 55 universidades fundadas até ao ano de 1440.11 Se a estas acrescentarmos mais 12 escolas superiores a que falsamente se atribuiu esse título,12 temos um total de 67 institutos de ensino superior, fundados na Europa, no intervalo de pouco mais de dois séculos, após a luta pertinaz contra a ignorância e as outras consequências das invasões bárbaras. Destes institutos, a Itália possuía 31, a França 14, a Espanha 9, a Áustria-Hungria 5, o Império germânico 3, a Inglaterra 2, a Irlanda 1, Portugal 1, e Suíça 1.

Só esta distribuição geográfica mostra para logo onde se achava o centro da cultura, o foco donde irradiavam as luzes para toda a Europa: é a Itália, sede do Papado.

Mas, sob a direção de DENIFLE, particularizemos mais. Qual a origem desta universidades? Impossível dar uma resposta geral. Podemos, neste ponto de vista, distribuí-las em quatro grandes categorias. À primeira pertencem as universidades constituídas antes de 1230, ex-consuetudine, sem nenhum diploma de fundação. São 11: Paris, Bolonha, Osford, Orléans, Angers, Salerno, Pádua, Vercelli, Reggio, Modena e Vicenza.13 A começar daquela data não se encontra nenhuma universidade fundada sem diploma. As erigidas com diploma exclusivamente PAPAL constituem a segunda categoria e são 21.14 A terceira categoria compreende 13 universidades
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10. H. DENIFLE, Die Universitäten des Mittelalters bis 1400, Berlin, 1885.

11. Deste número, porém, cumpre deduzir 9 universidades, cujos diplomas de fundação não lchegaram a ser executados. São elas: Na Itália 4: Fermo, Verone, Orvieto, Lucca; na França 1: Pamiers; Na Irlanda 1; Dublin; na Suíça 1: Genebra; na Espanha 2: Valência e Alcalá. Algumas destas foram efetivamente erigidas depois de 1900, termo a que cingiu Denifle as suas investigações. DENIFLE, Op. Cit., pp. 630-655.

12. São elas: Macerata, Lião, Brescia, Messina, Palermo, Viena, Parma, Reims, Todi, Pistoia, Mantua, Parma. DENIFLE, Op. cit., pp. 221-231.

13. DENIFLE, Op. cit., pp. 231-301.

14. Eis as mais célebres, distribuídas geograficamente: França 5; Tolosa (Gregório IX, 1229), Montepellier (Nicolau IV, 1289). Avinhão (Bonifácio VIII, 1303), Carhors (João XXII, 1332), Grenoble (Bento XII, 1339); Itália 4: Roma 2 universidades, a da Cúria Pontifícia (Inocêncio IV, 1244-45) e a Sapiência (Bonifácio VIII, 1303), Pisa (Clemente VI, 1343), Ferrara (Bonifácio IX, 1392); Alemanha 3: Heidelberg (Urbano VI, 1355), Colônia (Urbano VI, 1388), Erfurt (Urbano VI, 1389); Hungria 2: Pécs (Urbano V, 1367), Buda (Bonifácio IX, 1389-90); Inglaterra 1: Cambidge (João XXII, 1318); Espanha 1: Valladolid (Clemente VI, 1346), etc. DENIFLE, Op. cit., pp. 301-424.



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fundadas por diploma exclusivamente imperial ou principesco.15 Na 4.ª catgegoria incluem-se 10 outras universidades, cuja origem é devida a diploma papal e imperial ou principesco, juntamente.16 Assim, das 44 universidades fundadas com diploma até 1400, 31, isto é , quase 3/4 foram total ou parcialmente criação da Igreja. As outras concederam os Papas proteção, auxílios e privilégios.

O século seguinte, prolongado até a explosão da Reforma, não foi menos fecundo em criações universitárias. Infelizmente não temos para este período a guia preciosa e autorizada de um DENIFLE. Mas ainda assim conseguimos averiguar a fundação de 30 universidades, devidas umas à munificência de príncipes católicos, outras à iniciativa exclusiva dos Papas e bispos, outras ainda à coloboração harmoniosa dos dois poderes. Geograficamente, assim se distribuem estes grandes estabelecimentos de ensino: Alemanha 11; França, 6; Itália, 3; Espanha, 3; Escócia, 33;17 Bélgica, 1; Suiça, 1; Dinamarca, 1; Suécia, 1.18.
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15. As mais conhecidas: Espanha 5: Valência (Afonso VIII, 1212, 14), Salamanca (Fernando III, 1245), Sevilha (Afonso, o Sábio, 1254), Lérida (Jaime II, 1300), Huesca (Pedro IV, 1354); Itália 4: Arezzo (Carlos IV, 13550, Siena (Carlos IV, 1357), Nápolis (Frederico II, 1224), Treviso (Frederico o Belo, 1318); França 1: Orange (Carlos IV, IMP. 1365), DENIFLE, Op. cit., pp. 424-515.



16. Eis as mais importantes: Itália 4: Perúgia (Comune di Perugia, 1266, Clemente V, 1308), Florença (Senhoria 1321, Clemente IV, 1349), Placêrncia (João Galeazzo, 1398,Inocêncio IV, 1248), Pávia (Carlos IV imp. 1361, Bonifácio IX, 1389); Áustria-Hungria 3: Praga (Carlos IV imp. 1348, Clemente VI, 1347), Viena (Rodolfo IV, daque d"Áustria, 13265, Urbano V, 1365),Cracóvia (Casimiro, 1364, Urbano V, 1364); Portugal 1: Lisboa-Coimbra (D. Dinis, 1288-1309, Nicolau IV, 1290); Espanha: Perpingnan (Pedro IV de Aragão, 1349) Clemente VI, 1243). Cfr. DENIFLE, Op. Cit., 515-630.


17. Das 4 universidades mais importantes da atual Escócia presbiteriana, só uma, a de Edimburgo, parece ser de fundação protestante (Jaime VI, 1582), as outras três, Glasgow, Aberdeen e St. Andrew, são de origem católic. Digo parece, porque, segundo o protestante KEITH, o verdadeiro fundador da Universidade de Edimburgo foi o bispo católico de Orkney, ROBERTO REID (1558).

18. Mais particularmente: Alemanha, 11: Wurzburgo (1402, Bonifácio IX), Leipzig (1409, Alexandre V), Rostock (1419, Martinho V), Greifswald (1456, Cakixto III), Friburgo in Baden (1455) Tübingen (1477), Inglstadt (1459, Pio II), Treveri (14509), Mainz (1476, Sixto IV), Francoforte a. Oder (1506, Julio II); França 6: Aix na Provença (2409), Poitiers (1431) Caen (2437, Eugênio IV), Bordeux (1441), Nantes (1463, Pio II), Bourges (1465, Paulo II); Itália 3: Turim (1412), Parma (1422), Catânia (1445); Espanha 3: Alcalá (1499); Barcelona (1450, Nicolau V), Valência (1452); Escócia 3: St. Andrews (1411, bispo H. Wardlaw), Glasgow (1453), Aberdeen (1494); Bélgica ': Lovaina (1426): Suécia 1: Upsala (1477); Dinamarca 1: Copenhag (1479, Sixto IV).





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Resumindo: No decurso de pouco mais de 3 séculos (XII-XVI), no seio de uma sociedade emersa, não havia muito, da barbárie, lutando contra todos os obstáculos de um ambiente sem patrimônio intelectual hereditário, a Igreja católica coadjuvada por príncipes e soberanos católicos com um esforço civilizador gigantesco, conseguiu dotar a Europa de 97 institutos superiores de ensino.Não menos que o número, era notável a atividade intelectual das universidades medievais. Direito, medicina, línguas,19 Artes, ciências, filosofia, teologia, tudo se ensinava e cultivava com ardor. Em 1388 a Universidade de Bologna contava 68 professores (sem contar os teólogos que, membros de institutos religiosos, não recebiam vencimentos públicos) assim distribuídos: direito canônico 12, direito civil 27, medicina 14, artes 15. Em 1474 a Universidade de Ferrara numerasva 51 professores: 14 de direito romano, 9 de direito canônico, 2 de grego e os mais de medicina, filosofia, artes e letras latinas. O corpo docente de Sapiência de Roma em 1514 constava de 88 lentes: 20 de direito civil, 11 de direito canônico, 15 de medicina, 4 de teologia, 38 de artes, isto é, filosofia, matemática, retórica e gramática.


Ao número dos mestres correspondia a frequência dos alunos. A língua latina usada no ensinamento facilitava a afluência da juventude de todas as nações aos grandes centros de cultura. Em 1200 Bolonha contava dez mil estudantes: italianos, lombardos, francos, normandos, provençais, espanhóis, catalães, ingleses, germanos, etc. Pouco antes da Reforma, no século XVI, as universidades de Zwoll, Bois-le-Duc, Colônia, Deventer eram frequentadas respetivamente por 800, 1.200, 2.000 e 2.200 estudantes. A de Viena contava 3.000 e sob Maximiliano I, 7.000; a de Lovaina, fundada por Martinho V, no século XVI, segundo o testemunho de JUSTO LÍPSIO numerasva 7 a 8 mil escolares e 2.000 estudantes de leis; as de Paris e Cracóvia, nos seus melhores tempos, atingiram a elevadíssima cifra de 15 mil estudantes.

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19. Um decreto de CLEMENTE V, no Concílio de Viena de 1311, ordenava que se abrissem cursos de línguas orientais: hebreu, caldeu, árabe, armênio, etc. Poucos anos depois, Paris, Bolonha, Oxford, Salamanca, Roma já tinham os seus magistri linguarum. Antes, porém, do decreto do concílio vienense já a iniciativa particualr havia promovido com êxito os estudos linguísticos. Em 1350 S. RAIMUNDO DE PEÑAFORT alcançava do geral dos domínicos João Teutônico, a ordem de fundação de escolas para o árabe e ele próprio as iniciava, abrindo uma em Tunísia, outra em Múrcia. Quase na mesma época o B. RAIMUNDO DE LULO consagrava 10 anos ao estabelecimento do Colégio da Trindade de Miramar, destinado ao estudo do árabe e aprovada em 1276 por João XXII. A propaganda ativa deste zeloso missionário junto aos papas e cardeais preparou em grande parte o decreto do Concílio de Viena.



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A fim de facilitar aos pobres o acesso aos estudos superiores, a caridade católica fundara, em quase todas as universidades, bolsas ou becas de subvenção. Em Paris contavam-se 610 bolsas fundadas pelo clero;20 Em Lovaina havia mais de 40 colégios ou casas destinadas a hospedar e alimentar os estudantes diligente e talentosos mas sem recursos financeiros.

À vista deste rápido esboço quem ousará acusar a idade média de obscurantismo ou inculpar a Igreja católica de haver estorvado o progresso das ciências?

Nem só na fundação das universidades consistiu a ação da Igreja em prol da cultura. Percorrei a história dos Papas e numerai, se possível, as suas benemerências científicas. Ouvi ésta página de FREPPEL: "Seria infinito se quisesse enumerar todos os serviços prestados pelo Papado às ciências e às letras. Mostrar-vos-ei um Papa à frente da renascença da literatura grega e latina; os prófugos de Constantinopla que vêm buscar asilo à sombra do trono prontifício; Lascaris, no Esquilino, ao lado do palácio de Leão X ensina o grego à Europa admirada; Nicolau V que mantém uma legião de doutros que vão à cata de manuscritos, por todo o mundo; Pio II, o douto Enéias Sílvio, que une a própria ciência às luzes dos seus protegidos.. E para mais nos paroximarmos dos nossos dias citarei Paulo IV que favorece a Copérnico nas suas imnortais descobertasç; Gregório XIII que pede à astyronomia um cômputo mais regular dos meses e dos dias;21 SIXTO V que amplia a Biblioteca Vaticana,22 maravilha do mundo; URBANO VIII cujas poesias latinas figuram
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20. O pio e douto cônego ROBERTO SORBON fundou em 1232 o colégio de Sorbona (donde mais tarde o nome dado a toda a universidade) para auxiliar os estudante pobres. O colégio Mirton, fundado em Oxford, em 1274, o colégio de S. Pedro (Peterhouse), fundado em Cambridge em 1284 foram os primeiros dos numerosos institutos análogos das duas célebres universidades inglesas. Em Bolonha antes de 1400 já se contavam 6 grandes colégios, entre os quais o espanhol, devido à munificência do Cardeal ALBORNOZ (1364) e que ainda hoje se conserva.



21. Como é sabido, GREGÓRIO XIII reformou em 1582 o calendário juliano que apresentava nesta época uma diferença de 11 dias do calendário astronômico. As nações católicas abraçaram logo a indispensável reforma. Os protestantes, por ódio ao Papado (oh! espírito científico!) recalcitraram por quase dois séculos. A Inglaterra só adotou em 1752, a Suécia em 1753, os Estados alemães em 1776. Naturalmente não convinha ceder à verdade, só porque promulgada pelo Papa! Era preferível estar em contradição com a ciência que em harmonia com Roma! Ainda hoje, a cismática Rússia, por acinte ao Sumo Pontífice, caminha no seu calendário com um atrazo de 12 dias em relação ao resto do mundo civilizado.


22. Ainda em nossos dias, a Santa Sé adquiriu por 600.000 liras a riquíssima biblioteca dos príncipes Barberini, com 50 mil volumes e uma preciosa coleção de 12.000 manuscritos. LEÃO XIII franqueou aos doutos de todo o mundo os salões da magnífica biblioteca Vaticana que, um das melhores do mundo, conta atualmente cerca de 60.000 códices e 8.000 incunábulos. Quem viu no palácio dos palmas esta plêiade de sábios (mais de 250 qeu afluem anualmente para estudos prolongados) a enriquecer a ciência com a investigação dos tesouros da antiguidade, por mais sectário, não lhe sobra ânimo de acusar a Igreja católica de hostil ao progresso científico.



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com razão entre os melhores trabalhos do gênero nos tempos modernos, e finalmente o grande Bento XIV, ao qual prestava homenagem o próprio Voltaire que nele saudava o homem mais douto do século XVIII".23

Voltemos a página e estudemos a influência da Reforma na cultura intelectual da Europa.24
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23. Outro distinto historiador recente: "Citer les noms de Pie II, de Nicolas V, de Jules II et de Léon X, c'est évoquer le souvenir de la plus puissante et de la plus efficace protetion que la vie intellectuelle du genre humain ait jamais recue d'une autorité souveraine". G. KURTH, L'Eglise aux tournants de l'histoire(5), Bruxelles, 1913, p. 153.